O meu outro Blog - de Culinária
"A Cozinha da Grilinha"


16
Abr 06
- Então, que me dizes do que observas?

O rosto sereno não se alterou porque não é de seu cariz alterar-se, mas o peito inchou por momentos, libertando em seguida um longo suspiro.

- Digo que eles estão perdidos nos seus obscuros intentos.

- E que intentos são esses, que prestes os denominas de obscuros?

- O poder tomou as gentes, ou a vontade de o possuír, a matéria congemina contra o valor e a História que Lhes deixaste perde-se no novelo do tempo.

Ele olhou para baixo em profunda meditação e sorriu.

- Crês mesmo que nada restou do meu trabalho?

– indagou ainda com o sorriso desenhado nos lábios de fogo.

- Como concluír o contrário, se a riqueza se sobrepõe à alma e o corpo aniquila o espírito? O poder que impera entre as gentes não é o Teu. De novo o sorriso se desenhou no vislumbre do rosto.

- Como esperar a renovação da esperança, se tu és o primeiro a duvidar de Mim?

- Não, Senhor, eu… O gesto suave atalhou a frase.

- Todo o poder existente provém de mim, sabe-lo! Ao Homem resta-lhe a decisão de o tomar para si ou partilhá-lo com os seus semelhantes. É certo que muitos são aqueles que dele se apropriam, igualmente correcto o facto de o usarem mal, mas nada se transvia dos meus propósitos, também o sabes.

- Sei-o, sim, Senhor, mas os Homens não o entendem e culpam-Te pelos erros dos Homens. Por isto, penso que este estado de coisas Te é prejudicial.

- Por que insistes em duvidar se nada debaixo dos céus ocorre que não esteja nos meus desígnios? Não fales, escuta-me agora. A minha palavra foi dada no que concerne à liberdade de escolha do Homem, é seu o poder de decisão, fui eu quem lho deu. Sabia eu o que o Homem faria com tal poder? Por certo não duvidarás que sim?! Mas como pode o Homem apreender o valor do que lhe ofereço, se não lhe for dada a oportunidade de conhecer a vivência sem essa dádiva? Acaso devo facilitar-lha, gerindo eu o que prometi ser de sua exclusiva responsabilidade? Como apreciará o Homem o bem se desconhecer o mal?

- Senhor, perdoa-me a impertinência da minha ignorância, mas e os que são oprimidos por esses que detêm o poder? A dor que vi nesses é inenarrável, os tormentos por que passam são incontáveis, suas lágrimas, quais rios imponentes, perdem-se na terra que os castiga e ninguém parece ouvi-los, sequer vê-los!

- Choro eu abundantes lágrimas pelo clamor que me chega deles, sofro dores que não entenderás por cada lágrima que lhes amparo, pois que se repetem as dores dos cravos cravados no meu amado filho a cada lamento que lhes escuto.

- Mas o Homem pergunta, porque morrem impunemente esses que, confessas, tanto te fazem sofrer?

- Nenhuma morte é impune, disso também cuidei que ficasse destinado.

- Mas o Homem parece ter-se esquecido, Senhor.

- Crês que sim? Pois eu te digo que não! Quando a sombra da morte terrena se estende pelo iníquo, é a mim que ele regressa. Quando o infortúnio se acerca do poderoso, é a mim que ele regressa. Quando a terra geme e a natureza ameaça o mais rico, é a mim que ele regressa. Não penses, pois, que o Homem me esqueceu, ele apenas me esconde de si mesmo pelo tempo que lhe convém.

- Devo, então, depreender que nada está perdido?

- Perdido está aquele que se recuse a ouvir e a ver, perdido está quem acredita poder enganar-me, de resto, nada está perdido até à consumação dos séculos. Quem comigo falar com o coração, por certo será atendido. Quem comigo estiver, por certo não morrerá, assim o afirmo eu!

- Mas senhor, ao Homem cabe reconhecer o tempo que vive, não o Teu, por isso lhe é tão difícil entender a tua misericórdia, mais ainda os teus desígnios.

- Sei-o bem pois muitos me perguntam quando chegará o meu tempo. Não entendem que o tempo é meu, não eu dele. Quando o dia chegar, o Homem entenderá o que houver para entender, a justiça e o amor serão universais e todo mal será irremediavelmente sepultado e esquecido. Mas até ao meu dia, o Homem deve cumprir o seu tempo e muitos horrores estão, ainda, por acontecer. Acolherei no meu regaço todos os que por mim clamem, pois sofrerá o Homem até lá, sim, mas não duvides que sofrerei miríades de vezes mais por eles.

texto da forista Graça Maciel

* * Grilinha * * às 00:54
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Fernanda Grilo
(Grilinha)
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